Muitas vezes, ouvimos a frase clichê de que “criança não tem problemas” ou que “é tudo birra e fase”. No entanto, a psicologia clínica e as neurociências mostram exatamente o oposto: as experiências vividas nos primeiros anos de vida funcionam como os tijolos de fundação da nossa estrutura psíquica. É na infância que construímos nossas lentes para enxergar o mundo, a nós mesmos e as outras pessoas.
Quando uma criança enfrenta sofrimentos emocionais crônicos, invalidações constantes ou ambientes de alto estresse sem o devido suporte, ela não apenas sofre no presente. Ela começa a cristalizar o que chamamos na Terapia de Esquemas de Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs).
O que são Esquemas e como eles nascem na infância?
Pense nos esquemas como “filtros invisíveis”. Se as necessidades emocionais básicas de uma criança — como afeto, segurança, estabilidade, autonomia e limites realistas — não são atendidas, a mente dela cria defesas para sobreviver àquela dor.
Por exemplo:
- Privação Emocional: A criança cresce sentindo que nunca será plenamente ouvida ou cuidada, tornando-se um adulto que se isola ou aceita migalhas em relacionamentos.
- Desconfiança/Abuso: A percepção de que as pessoas vão machucá-la a qualquer momento, gerando adultos hipervigilantes e ansiosos.
- Fracasso: O sentimento crônico de incapacidade, moldando adultos que sabotam a própria carreira por medo de errar.
O papel da Psicoterapia Infantil
A terapia na infância não serve para “consertar” comportamentos incômodos para os pais, mas sim para dar voz e repertório à criança. Através de abordagens lúdicas integradas à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o psicólogo atua ajudando a identificar o que aquela demanda (seja ela isolamento, agressividade, queda no rendimento escolar ou crises de choro) está tentando comunicar.
Cuidar da saúde mental de uma criança é um ato de prevenção intergeracional. Quando intervimos de forma precoce, evitamos que uma dor infantil se transforme em um transtorno de ansiedade estruturado, em uma depressão crônica ou em dinâmicas de autossabotagem na vida adulta.
Se você percebe que seu filho ou uma criança próxima tem encontrado dificuldades para regular suas emoções, lembre-se: buscar ajuda profissional não é sinal de falha na criação, mas sim o maior ato de proteção e cuidado que você pode oferecer ao futuro dela.
